Quem são os cristãos deslocados internos?
Publicado em 03 Out 2025 • Atualizado em 09 Out 2025

[Atualizado a 31/01/2025 às 20h]
Os cristãos deslocados internos são todos aqueles que seguem Jesus e que foram obrigados a deixar as suas casas, igrejas e comunidades por causa da perseguição, mas que continuam dentro do seu próprio país. De acordo com os dados da Lista Mundial da Perseguição (LMP) 2025, 183.709 cristãos foram deslocados em 61 países – entre 1 de outubro de 2023 e 30 de setembro de 2024. Só na África Subsaariana, entre 2014 e 2022, o número de cristãos deslocados chegou aos 16,2 milhões.
As razões que forçam estas pessoas a deixarem tudo para trás são muitas: desde guerras e conflitos armados a catástrofes naturais, como terramotos ou inundações. Num instante, todo o esforço de uma vida para construir uma casa, todo o amor e sonhos de família desaparecem. Muitas vezes, por pura perseguição religiosa.
Mesmo quando a fuga não é causada diretamente pela perseguição, o facto de serem cristãos torna a situação ainda mais difícil e vulnerável. Por isso, o tema do Domingo da Igreja Perseguida (DIP) 2025 foi: “Forçados a fugir: cristãos deslocados por causa da violência pedem socorro”. Todos os anos, este movimento junta milhares de igrejas em Portugal, no Brasil e na América Latina para orar pela Igreja Perseguida.
Onde e como vivem os cristãos deslocados?

O cristão Dalandi foi deslocado na Nigéria por causa da violência
Segundo a Portas Abertas, estes cristãos estão espalhados por 61 países. Mais de metade encontra-se na Nigéria – cerca de 100 mil pessoas. Mianmar, Burkina Faso, República Democrática do Congo e Índia juntos somam quase 70 mil deslocados, ou seja, mais 38%.
As condições de vida são muito precárias. Casas improvisadas, pouco ou nenhum acesso a água e comida, falta de escolas e de trabalho. Em muitos acampamentos, oficiais ou informais, não há saneamento básico, o que facilita a propagação de doenças. Famílias inteiras vivem em espaços minúsculos, expostas a abusos e sem privacidade.
Em fuga na Nigéria
A Loise perdeu o marido, de 37 anos, na Nigéria, e ficou responsável por sustentar os cinco filhos. Quando o marido foi morto por extremistas do povo fulani, ela teve de fugir com a família para um campo de deslocados. “Aqui temos dificuldades para arranjar comida, lugar para dormir e muitas outras coisas”, conta a seguidora de Jesus.

A Loise fugiu com os cinco filhos para um campo de deslocados na Nigéria
A realidade da Loise é parecida com a de outros 100 mil cristãos que andam pela Nigéria à procura de um sítio seguro, longe dos ataques de grupos criminosos e extremistas islâmicos. “Não temos para onde ir nem o que comer. Eles queimaram as nossas roupas. Estamos a passar momentos muito difíceis. Precisamos de comida, roupa e abrigo. Queremos muito voltar para casa e que a paz seja restaurada”, diz o Dalandi, outro cristão deslocado pela violência na Nigéria.
Deslocados em Mianmar
Em Mianmar, desde o golpe militar de 2021, já 2,8 milhões de pessoas foram forçadas a fugir. Mais de 100 mil são cristãos. Tun Maung (nome fictício) fugiu com os pais, a esposa e os filhos. Mais tarde tiveram de fugir outra vez, por causa de novos confrontos.

O Tun Maung teve de fugir com a família duas vezes por causa dos conflitos em Myanmar
Ele conta: “À noite trancamos tudo, acendemos velas e ficamos em silêncio. As crianças têm de se calar. Sinto-me mal como pai, porque a infância delas é vivida com medo e escondida.”
Apesar do risco constante de serem apanhados e mortos, o Tun Maung continua o seu trabalho de encorajar outros cristãos deslocados e os que vivem em zonas afetadas pelos conflitos. Para conseguir chegar aos irmãos na fé, sofre assédio dos soldados e corre o risco de ser atingido por minas e bombas.
A vida em acampamentos em Manipur
Em Manipur, na Índia, os conflitos étnico-religiosos desde 2023 também obrigaram milhares de cristãos a fugir. Famílias foram separadas e muitas só encontraram abrigo em acampamentos improvisados.

A Ritika e o bebé foram acolhidos num dos campos para deslocados internos.
A Ritika estava grávida quando teve de fugir em maio de 2023. Ao ver as ruas de Manipur cheias de explosões e protestos, ela andou o mais rápido que a gravidez avançada lhe permitia com a sogra. “Não estávamos preparadas para estes ataques. A minha casa estava a arder bem à minha frente. Foi uma cena horrível.” Pouco depois, começou a ter contrações no caminho e o bebé nasceu na floresta.
“As mulheres que estavam connosco ajudaram-me a dar à luz. Os homens fizeram uma cama de bambu na montanha e ficaram a vigiar para nos proteger. Nunca vou esquecer este dia. Louvo a Deus pelo dom da vida que Ele trouxe a este mundo, mesmo numa situação tão terrível”, conta a Ritika. Hoje, ela e a família estão abrigadas num campo de deslocados internos.
Qual é o impacto do deslocamento para as igrejas locais?
As igrejas locais são diretamente afetadas quando os cristãos são deslocados, porque são elas que formam a comunidade de fé. Quando todos os membros vão embora, a igreja tem de interromper as suas atividades e fechar as portas.
Antes da invasão do Estado Islâmico, a igreja no Iraque tinha, em média, um milhão de cristãos. Mas milhares de seguidores de Jesus tiveram de fugir e agora só restam cerca de 154 mil. Além dos conflitos, a falta de empregos e a crise económica fazem com que muitas pessoas deixem o país.
“Estamos a trabalhar muito para manter a nossa existência. O meu grande sonho é que os jovens fiquem e se tornem o sal e a luz deste país. Nós precisamos realmente deles no futuro para levar a nossa comunidade a um lugar melhor”, explica o Daniel, um jovem líder cristão do Iraque.
Como a Portas Abertas apoia os cristãos deslocados?

Parceiros locais da Portas Abertas entregam Bíblias a crianças deslocadas na Nigéria
A Portas Abertas ajuda os cristãos deslocados de várias formas. No apoio imediato, distribuem comida, água, utensílios domésticos e coisas básicas como cobertores e roupa de inverno.
Para além disso, os cristãos deslocados têm acompanhamento de parceiros locais e recebem apoio emocional, jurídico e cuidados pós-trauma. Também aprendem uma profissão e participam num projeto de geração de rendimento, onde recebem um investimento para começar o próprio negócio e conseguir sustentar-se sozinhos.
A Redação Portas Abertas Portugal é a equipe editorial de atuação na cobertura da perseguição aos cristãos no mundo. Publica notícias baseadas em relatos diretos de correspondentes e cristãos locais em mais de 70 países. Nosso processo editorial é baseado em verificação, contextualização e avaliação de riscos. A identidade das fontes é preservada quando há risco à segurança, sem comprometer a veracidade dos fatos.
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