Qual a dimensão da força da nossa liberdade?
Publicado em 29 Dez 2025 • Atualizado em 22 Dez 2025

A realidade vivida pelos nossos irmãos no primeiro século da era cristã é algo que dificilmente conseguimos alcançar, ou talvez nos tenhamos condicionado a não alcançar, devido à superficialidade do nosso compromisso com a verdade do Evangelho que nos foi transmitido. A nossa vida quotidiana pós-moderna conduz-nos a uma leitura distorcida daquela realidade. Tendemos a mitificar personagens e a envolver os acontecimentos daqueles dias numa “aura cinematográfica”, como se tudo não passasse de uma ficção destinada a emocionar-nos e a arrancar-nos lágrimas entre um punhado de pipocas e outro. Logo depois, retomamos a nossa vida “normal”, em alguma praça de alimentação, regressando à superficialidade da nossa existência.
Em Atos 4.1-20, Pedro e João desafiaram o sistema religioso judaico da época ao curarem um paralítico à porta do templo. O templo funcionava como uma verdadeira embaixada judaica em Jerusalém, uma zona franca para o comércio de animais e para o câmbio de dinheiro, controlada pela casta sacerdotal, tudo sob a autorização do Império Romano. A perda de fiéis significava perda de domínio, influência e poder por parte dos sacerdotes sobre o povo.
Quando Pedro e João curaram aquele paralítico com mais de quarenta anos, à porta do templo, o número de convertidos subiu para cinco mil homens. No capítulo cinco, verso doze, Lucas relata que todos os dias os convertidos se reuniam no Pórtico de Salomão, fora do templo. Era uma revolução que mudaria o eixo da fé e da caminhada do povo, e isso aterrorizava os sacerdotes. Por essa razão, Pedro e João foram presos e levados perante as autoridades judaicas e escribas, sob a ordem de Anás e Caifás – os mesmos que levaram Cristo a Pilatos para condenação.
Poderosos desafiados por homens simples
Pedro e João eram pescadores iletrados, homens comuns, sem poder de mobilização, sem controlo da máquina religiosa, sem força militar romana – apenas homens simples. Assim foi, é e sempre será a perseguição contra a verdadeira Igreja de Cristo: gente poderosa a usar a força contra gente humilde, ameaçando iletrados que movem os céus pela graça, pela força do Crucificado ressuscitado.
Homens que deixaram barcos e redes, deixaram o sustento, as casas e as vidas porque encontraram o Messias, a razão da existência. Homens que tudo podem na força de Deus que os fortalece, e não na força do sistema Roma-Templo.
Para Pedro, João e os demais discípulos, nas palavras de Paulo, “o morrer é lucro”, pois já tinham encontrado a vida. E por terem encontrado a verdadeira vida e o verdadeiro sentido de viver, nada mais lhes era importante – nem a própria vida. Como afirmaram Pedro e João:
“Julguem os senhores se é justo, diante de Deus, obedecer-vos antes que a Ele. Pois não podemos deixar de falar do que vimos e ouvimos.”
Esses apóstolos estavam a desafiar a maior autoridade judaica da época – o sumo sacerdote, o Sinédrio, a Lei; e, por consequência, o poder romano. O poder religioso e político imperial mobilizaria todas as suas armas contra o Reino de Deus, com força desproporcional, como nos dias de Herodes, que moveu um exército contra bebés judeus para matar o Menino Jesus. Como Faraó, que utilizou um exército para exterminar os meninos hebreus, visando a morte de Moisés. Mas o Filho ergue-Se como um renovo, um pequeno ramo que brota na terra seca (cf. Isaías 53.2), e contra todas as forças faz surgir o Reino de Deus.
Se fosse hoje, seria como se o nosso país fosse dominado por uma força imperial. Não necessariamente humana, mas certamente espiritual. Seríamos cidadãos sem cidadania, sem governo, sem lei, sem proteção, e a nossa religião teria líderes curvados ao sistema, mediando entre o império e o povo, em troca do domínio sobre o comércio das ofertas e o câmbio do dinheiro – tudo isso em nome de Deus. E quando o Evangelho nos abrisse os olhos para a verdadeira vida e para a maldade desse império, seríamos desterrados, perseguidos, apedrejados, crucificados, sem direito à lei, sem direito à vida. E como resposta diríamos:
“Podem tirar-nos a vida, mas não deixaremos de crer nem de falar daquilo em que cremos.”
Suportaríamos isso?
A nossa resposta nunca é “sim”. A nossa resposta é sempre: “Isso nunca acontecerá.”

Qual é a dimensão da força da nossa convicção?
Até que ponto estamos verdadeiramente comprometidos com a verdade do Evangelho, prontos para abandonar os nossos barcos, redes, casas e cidades, dispostos até a perder a própria vida por termos encontrado a verdadeira vida em Jesus?
Os relatos dos desafios enfrentados pelos nossos irmãos em países onde há perseguição aos cristãos revelam homens e mulheres dignos de serem chamados seguidores do Crucificado e Ressuscitado, dignos de serem chamados livres. Irmãos nossos, gente comum, simples como eu e você, pessoas que hoje vivem em campos de refugiados ou errantes na sua própria terra, viúvas, viúvos e órfãos. Gente que, em meio à perseguição dos Herodes, dos Anás e dos Caifás dos nossos dias, continua a glorificar a Deus, testemunhando a alegria da salvação e demonstrando firmeza na esperança em Cristo Jesus. Dando provas de que são livres. Segundo o ensino de Jesus no Sermão do Monte, esses serão chamados bem-aventurados.
Quando somos convidados a orar pelos nossos irmãos perseguidos, não nos enganemos: não o fazemos por sermos cidadãos de um país livre, mas porque éramos prisioneiros do sistema Roma-Templo e já não o somos. Não somos livres por não termos uma espada contra a nossa fé; somos livres porque não nos curvamos nem a Herodes nem ao templo corrompido. O nosso problema nunca foi nem será a espada de Herodes. Essa espada apenas nos pode tirar desta terra, mas jamais nos arrancará da Jerusalém celestial. Os nossos irmãos perseguidos são livres: o Evangelho libertou-os, Cristo salvou-os. A alegria da salvação alcançou-os, e a escravidão do pecado e da morte eterna foi vencida. Oramos por eles apenas para que sejam fortalecidos em meio à perseguição dos homens, pois livres deste mundo já são.
Livres em meio à perseguição ou escravos em meio à liberdade?
Talvez nós, que nos sentimos livres, sejamos os verdadeiros prisioneiros, perseguidos dia e noite por um sistema humano que nos diz que a verdadeira vida está na materialidade do sucesso na terra que pisamos.
Sentimo-nos injustiçados quando nos falta a riqueza desta terra; choramos e nos entristecemos quando fracassamos neste mundo, porque a lógica do império já nos venceu e nos aprisionou. As nossas almas são prisioneiras da performance e do sucesso humano. Pensamos que somos livres, mas infelizmente somos escravos. Somos saduceus e escribas sob a tutela de Anás e Caifás. Como eles, acreditamos que liberdade são as benesses de Roma. Por isso somos escravos. O nosso testemunho revela conquistas terrenas e sucessos materiais contabilizados. Alinhamo-nos mais com o perfil do homem pós-moderno e os seus atributos corporativos do que com a identidade do Crucificado e Ressuscitado — e o pior é que isso nos satisfaz. Pior ainda: sentimo-nos livres sem perceber que somos prisioneiros desse sistema.
Deveríamos alegrar-nos com a vitória do Cordeiro na vida dos irmãos que testemunham a sua fé em meio à perseguição, porque são livres. Deveríamos glorificar a Deus pelo facto de a liberdade do sangue de Jesus os ter alcançado e regozijar-nos com eles por tão grande milagre. E deveríamos igualmente adorar a Deus pela liberdade em Cristo, que nos livrou do domínio da lógica dos impérios que nos cercam. Agradecer por sermos livres e termos coragem de dizer a este sistema que continuaremos a servir a Cristo, mesmo que isso nos custe a vida, os barcos e as redes, ou mesmo o assento à mesa dos dominadores.
Só então levantaríamos as nossas vozes em oração pelos nossos irmãos livres em meio à perseguição. E essa oração partiria de nós, cristãos livres do sistema Roma-Templo deste mundo, também perseguidos pela lógica dominadora que nos cerca. Seríamos um com eles. Todos nós. Livres em meio à perseguição. Para a glória de Deus.
Ore pela Igreja Perseguida
Conheça a Lista Mundial da Perseguição, e saiba mais sobre a realidade dos cristãos perseguidos e ore pelos nossos irmãos e irmãs que arriscam tudo por amor a Cristo.
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